A Busca pela Bem-Aventurança Eterna

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Por: Bhakti-tirtha Swami

Um ponto chave enfatizado em escrituras de diferentes caminhos é o desenvolvimento de nossa relação com Deus. Infelizmente, as pessoas frequentemente têm informação limitada sobre o objeto de seu amor – o que Deus gosta e não gosta, Suas atividades, Sua morada – e como se conectar com o Senhor. Existe disponível muita e detalhada informação sobre esses tópicos, e nós iremos compartilhar um pouco dela nesta discussão. Fique bem atento; serão expostas certas coisas que irão emergir posteriormente em sua consciência, nos momentos em que forem mais necessárias.

Quatro Caminhos Universais

Como nos conectamos com a meta suprema? Que caminho nos levará de volta ao lar? Para começar, todos os caminhos caem em quatro categorias filosóficas: materialismo, niilismo, impersonalismo e personalismo. É importante manter em mente essas quatro escolas de pensamento conforme examinamos o que está dentro do universo material, o que está fora do universo material, e o que está no reino espiritual.

A filosofia do materialismo é basicamente uma filosofia ateísta. O materialismo sustenta que um ser humano não passa de uma entidade física sem alma. A existência é simplesmente uma questão de estar em diferentes ambientes, que produzem uma personalidade correspondente. A vida é vista como uma questão de simplesmente comer, dormir, procriar e se defender, ou, como declarado por Charles Darwin, sobrevivência dos mais aptos. Essa filosofia produz um egoísmo grosseiro, e se baseia em exploração e manipulação, em vez de uma vida em harmonia com a natureza. Esta é a filosofia ateísta que as forças de opressão adotam e tentam propagar ao redor do mundo.

Em segundo, há a filosofia do niilismo. De acordo com esta filosofia, o envolvimento material produz ansiedade, relacionamentos materiais trazem dor, e buscas materiais causam estresse, frustração e depressão. Esta ideia está profundamente conectada com a filosofia do budismo, na qual a meta é tentar alcançar o nirvana: liberdade do ego, liberdade de um foco no mundo material e liberdade do bombardeio de interferências sensuais. Esta filosofia nos diz o que a realidade não é, mas tem pouca informação sobre o que a realidade é.

A terceira filosofia é a do impersonalismo. O impersonalismo nos retira da região material e nos põe na consciência cósmica, ou samadhi. Nesta consciência, as pessoas experimentam a universalidade de toda a criação e sentem certa unidade com Deus, pensando que elas mesmas são Deus. O foco é em se fundir na energia de Deus e se tornar uno com a luz de Deus. A filosofia do impersonalismo tenta abranger todos os elementos materiais básicos, mas explica apenas uma dimensão da Divindade, sendo, portanto, incompleta. Ela mostra como somos unos com Deus, mas negligencia totalmente a explicação de como somos diferentes de Deus, e isto é essencial. É esta diferença que experimentamos, e que prevalece como fundamental para o desenvolvimento espiritual. Se somos diferentes de Deus, então podemos desenvolver uma atitude de serviço a Ele. Do contrário, o serviço amoroso se torna um tanto impossível.

A filosofia do personalismo reconhece que o materialismo traz dor e confusão, mas que uma pessoa deve superar essas dificuldades e tornar-se livre do bombardeio sensual. A filosofia do personalismo inclui aspectos do materialismo, do niilismo e do impersonalismo. Mas ela vai além. Ela reconhece que há certas atividades que não são materiais.

Consideremos uma analogia. Um homem tem uma cavidade que está lhe causando dor de dente. Ele não consegue nem mesmo apreciar o cheiro da comida sem que seu dente doa. O materialismo é como um dente dolorido; ele causa muita dor e sofrimento. O homem tenta superar a dor mentalmente e também toma medicação, a qual interrompe a dor por um tempo. Este nível é como o niilismo: apesar de ele estar livre da dor causada pelo dente, seu estado é, na melhor das hipóteses, de neutralidade. Conforme o homem se foca em desfrutar o aroma da comida, ele está num nível parecido com o impersonalismo; ele pode desfrutar da energia da comida. Uma vez que o homem muda de ideia e vai ao dentista e fica curado da dor de dente, não apenas ele pode cheirar a comida, mas pode, de fato, desfrutar de comê-la. Este nível é análogo ao personalismo. A eliminação da causa que gerava seu sofrimento permite a ele ter um relacionamento direto com a comida. Às vezes, quando nos encontramos em uma situação ruim, pensamos que “positivo” significa a eliminação do negativo. No entanto, acabar com nossa situação material negativa é apenas o início. O estágio seguinte é encontrar alguma ocupação espiritual positiva para substituir a atividade material.

Personalismo versus Impersonalismo

Concepções pessoais automaticamente contêm a compreensão impersonalista e vão além dela. O Senhor Supremo, sendo absoluto, pode existir pessoal e impessoalmente ao mesmo tempo. Existem três energias básicas do Divino: a energia externa, que mantém o universo material; a energia marginal, que é feita das entidades vivas; e a energia interna, que mantém o mundo espiritual. Devido ao nosso condicionamento, tendemos a ver o espiritual como o oposto do material. Para nós, material significa forma, logo espiritual deve significar amorfo. Material significa ativo, logo espiritual significa destituído de atividade. De maneira a alcançarmos uma verdadeira compreensão das atividades no mundo espiritual, devemos deixar essas ideias erradas de lado. Através do amor e da devoção, podemos ultrapassar a abordagem impessoal de Deus após muitas e muitas vidas nesta consciência cósmica. Nós, então, finalmente obtemos uma oportunidade de entrar em contato com as atividades extraordinárias do mundo espiritual.

O mundo espiritual é nosso habitat natural. Os grandes professores estão constantemente nos falando sobre uma existência além desta que percebemos. Eles estão ansiosos para nos mostrar os meios para recuperarmos este precioso estado que perdemos. Por muitas vidas, a alma tem vagado dentro e fora de muitos ambientes e situações, inconscientemente desesperada por associação espiritual.

Quando proferimos a oração “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome, vem a nós o vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu”, compreendemos que o mundo material é um reflexo do mundo espiritual. O mundo material é, na verdade, um reflexo pervertido da realidade. No mundo material, temos muitos tipos de interações, mas elas são limitadas, dolorosas e, finalmente, frustrantes. No reino espiritual, nosso relacionamento é com o Senhor, e nossas atividades são sempre novas. Cada segundo no mundo espiritual torna-se um momento de prazer superior.

Há duas divisões principais no reino espiritual. Há o brahmajyoti, o qual às vezes é referido como a luz ou a refulgência, e há os planetas espirituais, onde as diferentes manifestações do Senhor e de Seus devotos residem. Está presente ali o aspecto pessoal de Deus. Alguns de vocês continuam buscando unidade, a luz impessoal, e a oportunidade de se fundirem com o Supremo. Este desejo se deve a certa contaminação material. É a primeira fase que experimentamos conforme começamos a nos conectar com a consciência superior. Conforme experimentamos a unidade cósmica, podemos ficar tão intoxicados e felizes que concluímos falsamente que não existe nada superior. Este é o nosso primeiro grande erro. Essas experiências são prazerosas, mas também são limitadas. Além da consciência cósmica está a oportunidade de intercâmbio pessoal com o Senhor.

“Liberação” é um termo frequentemente utilizado nas escolas de pensamento impersonalista – liberação do mundo material para tornar-se uno com Deus, ou até mesmo tornar-se Deus. Novamente, nossa meta deve estar além da liberação. Nós devemos ser liberados incontáveis vezes antes de termos uma chance de realmente entrar no reino de Deus. Devemos viajar por muitas vidas e pagar impostos enormes – buscar austeridades, religiosidade e espiritualidade de diversos tipos – para irmos além da plataforma da liberação.

Há uma fase intermediária de desenvolvimento na qual somos capazes de nos associarmos com uma forma individual de Deus, localizada na região do coração de cada ser vivo; este aspecto de Deus é conhecido como o paramatma. Esta é uma “unidade” superior, que é mais localizada e mais pessoal, um estágio que grandes iogues aspiram alcançar através de suas práticas ióguicas. Nós podemos então avançar espiritualmente em direção à associação suprema última com o Senhor Supremo no mundo espiritual.

Voltando à analogia da dor de dente, uma vez que o cheiro da comida permeia o nariz de uma pessoa, o desejo de comer a comida irá, cedo ou tarde, tornar-se a meta mais desejada. Essa pessoa irá então tentar obter a comida e desfrutar dela de todas as maneiras possíveis. Similarmente, o impersonalismo eventualmente levará ao personalismo. A questão é: pegaremos a rota longa e lenta do desfrute dos sentidos ou a rota direta e rápida da rendição à vontade do Senhor? A segunda opção concede prazer eterno.

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