INTRODUÇÃO AO HATHA-YOGA PRADIPIKA

Hatha Yoga Pradipika é uma das principais escrituras dentro da cultura do hatha-yoga que fala diretamente de técnicas, diferente do Bhagavad-Gita ou os Sutras de Patanjali que estão mais ligados a questões de cunho filosófico. Datada um pouco antes do século xv, Pradipika significa ” luz brilhante” e também “comentário”. O autor Svatmarama Yogendra, parece ter sido um adepto da ordem Kanphata yoga. Logo no inicio do livro após reverenciar Senhor Siva, o autor declara ter aprendido essa ciência tão profunda através de seus mestres Goraksha e Matsyendra.

Goraksha foi guru de Matsyendra e é tido como um grande lider, pertencente a tradição dos Natha yogis, tradição essa que tem o senhor Siva como o “Adi” primeiro dos Nathas,  por isso  citado pelo autor como Adhinatha. Uma peculiaridade importante entre os Nathas são suas vocações para poderes místicos (siddhis), por isso chamados de Mahasiddhas. Uma escritura com muita influencia não só do yoga em si, mas principalmente do Tantra devido a sua natureza de valorização do corpo como veiculo de elevação espiritual.

Os quatro capítulos se dividem num total de 384 versos, com uma abordagem muito abrangente e segura, vejamos:  nomes dos grandes yogis místicos Mahasiddhas, asanas, ambiente, dieta e hábitos adequados para a pratica, técnicas de pranayama e efeitos, bandhas (contrações musculares em diferentes pontos), mecanismos de purificação física (Satkarma), mudras (técnicas similares aos asanas com efeito energético profundo) e técnicas de intimidade sexual onde são exploradas alguns mecanismos de reabsorção seminal e fluido feminino para elevação e equilíbrio energético (Vajroli) estando diretamente ligado  a elevação da energia da Kundalini, que representa a grande energia ascendente do individuo.

É  claro que questões mais esotéricas como Kundalini, Shakt (potencialidade vital), os nadis (canais energéticos), granthis (pontos de densidade energética que precisam ser suplantados) são muito bem desenvolvidos pelo autor.

E  por fim, temas mais profundos são discutidos como Raja-yoga, Laya yoga (o estado de dissolução)  e Samadhi.

“  Há muitos que são apenas Hatha-yogis e não permeiam o Raja-Yoga. Pois esses são praticantes amadores que nunca alcançam o resultado profundo de seus esforços.”

Hatha yoga Pradipika   Cap. 4, verso 79

Sendo um livro técnico e pratico Svatmarama sempre estabelece o propósito de todo esse conjunto de atividades que culmina no “Raja-yoga”, esse conceito foi bem definido por Patanjali no Yoga Sutra como os três últimos degraus do processo do yoga, ou seja, concentração, a meditação e por fim o transe; já no Bhagavad-Gita krishna afirma para Arjuna no capitulo 9 que o Raja-yoga é o rei da educação e o mais secreto de todos os segredos,  por dar a percepção direta do “Eu” a alma espiritual.

O samadhi é descrito pelo autor em diferentes momentos de seus registros, nos últimos versos o conceito de samadhi é descrito como um transe onde o praticante não sofre mais influencia do tempo, não recebe mais informações através dos sentidos, e  a mente não está desperta nem adormecida, pois o yogi está além de qualquer influencia.    Om Tat Sat….

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A HIERARQUIA DO SER.

“Os sentidos funcionais são superiores a matéria bruta: a mente é superior aos sentidos; por sua vez, a inteligência é mais elevada do que a mente; e ela (a alma) é superior a inteligência.”

BHAGAVAD-GITA 3.42

Na nossa estrutura como individuo, existe uma hierarquia de elementos organizada de forma perfeita e divina, porém a alma sendo superior nessa escala permanece esquecida devida ha falta de conhecimento (avidya).

A Bhagavad-Gita capitulo 7.4 nos explica que terra, água, fogo, ar, éter são os cinco elementos primários da matéria, porem existem ainda a mente, inteligência (consciência) e o Ahankara (falso ego), ou seja, um total de oito elementos. A partir da união desses elementos, formas se manifestam tornando o mundo que vivemos (objetos dos sentidos), assim nossos sentidos se atrai pelos seus objetos e a mente cumpre seu papel de desejar e criar formas de desfrutar de maneiras ilimitadas dessa relação entre sentidos e seus objetos. Notemos a atração natural dos olhos pelas belas formas, do olfato por exuberantes fragrâncias e  assim em diante.

Os pensamentos são a principal atividade da mente, o Yoga-Sutra de Patanjali 1.2 coloca como: “cittta-vrtti” as flutuações da mente. Quando entendemos o conceito da palavra Dharma que seria a verdadeira ocupação, percebemos que analogicamente o “dharma” da mente é citta: pensar, desejar, etc. E isso não é bom, quanto mais a mente predomina, menos a consciência atua, fazendo do individuo escravo de seus sentidos e desejos, que não são nada mais projeções da mente. Projeções essas, que derivam da necessidade da interação dos sentidos com os objetos dos sentidos.

A inteligência ou consciência superior seria a forma mais coerente de estar situado devido a sua natureza de discernir, atuando de maneira coerente a auto-realização, discernindo e filtrando as necessidades da mente, elevando a vibração do espiritualista para uma condição cada vez mais elevada no seu processo, assim chamado por Krishna na Bhagavad-Gita 3.43 de Buddhi-yoga, a yoga da inteligência superior.

O ego que se responsabiliza pela identificação, faz com que acreditemos que somos o que a experiência material nos permite ser, por isso estamos sempre fazendo distinção entre o que gostamos ou não, o que é bom ou ruim, e assim vivendo essa dualidade entre sofrimento e felicidade. No Bhagavad-Gita 2.14  Krishna coloca para Arjuna que o yogi não se perturba entre sukha e dukha, felicidade e tristeza, e sim tolera sem se perturbar.

A alma, é o ingrediente puro, a essência do individuo, ela é constituída de eternidade, consciência pura e bem-aventurança transcendental. Essas qualidades são acessadas no processo de descoberta do seu próprio ser, esse é o propósito do yoga!

A conexão é dada quando de alguma forma o yogi desenvolve a percepção clara de sua natureza como parte integrante de Deus; controlando seus sentidos, fazendo da mente sua melhor amiga, utilizando a sua inteligência superior, desconstruindo seu falso ego e por fim, se realizando como alma espiritual! Vamos tentar?

Junior (Jay Gauranga)

O asana nos revela Yama e Nyama.

A pratica de ashtanga vinyasa yoga no primeiro momento parece ter uma abordagem apenas física, mas conforme o aluno avança e ganha profundidade, a percepção dos sentidos se torna muito clara para si mesmo e a mente cada vez mais forte. O vinyasa (movimento e respiração) leva o aluno há uma meditação em  movimento. O ‘viny’ significa colocar de forma adequada, que nesse caso seria o asana, porém na evolução do vinyasa o aluno passa a ganhar leveza, como se ele aprendesse a lidar com a gravidade há seu favor, e assim se torna cada vez mais leve e a pratica flui com equanimidade e segurança. É dito que no Yoga-Korunta está escrito:

                          “Óh yogui, não pratique asana sem vinyasa.”

   Sendo o vinyasa a base da pratica, o Trishtana (tri no sânscrito três) são os principais características do processo.

*Asanas: são posturas físicas que criam determinada estrutura no seu corpo favorecendo a melhor circulação energética devido a tonificação e alongamento muscular. Purificando o sistema nervoso favorecendo mudanças de padrões que no inicio são físicas e futuramente mentais. Lembrando que os bandhas (contrações musculares em determinadas partes do corpo) atuam sempre em conjunto com os asanas criando maior estrutura e favorecendo o acumulo de calor e  concentração de energia.

*Ujjayí: a respiração, ujjayí deriva da raiz ujji (conquistar). Com uma leve contração da laringe estreitando a passagem de ar produzindo um  rugido na garganta enquanto respiramos. T.K. Desikachar traduz ujjayí como “aquilo que limpa a garganta e dá domínio sobre o peito.” Essa respiração também colabora para manter a temperatura do corpo elevada. Sendo uma respiração  fluida não permitindo a retenção do ar nos pulmões, o tempo para a combustão é mínimo, sendo assim o corpo se aquece cada vez mais.

*Drishti: o foco, a direção do olhar. Em cada postura há um ponto especifico para direcionar o olhar. Possui efeito estimulante nos músculos e nervos ópticos e através deles, no sistema nervoso central, auxilia o processo de estabilização da mente, sendo muito útil contra depressão e melhora da memória favorecendo diretamente  a concentração.

   Os bandhas em conjunto com a respiração ujjayí, alavancado pelos saltos gera calor aumentando a temperatura do sangue e purificando órgãos e músculos, expelindo toxinas indesejáveis e liberando hormônios através do suor que nutrem o corpo uma vez que esfregado na pele. Pattabhi Jois falava que sangue “grosso” é sinal de saúde ruim e que através da disciplina da pratica o sangue ia se tornado “fino” livre de impurezas. Mas não podemos deixar de ressaltar que a alimentação é essencial para manutenção do sangue ‘fino’.

    Os asanas apenas, não são a prioridade na pratica, pois o Trishtana (asanas,ujjayí e drishti) mais o vinyasa irão levar o aluno há um a pratica sólida e profunda tendo como resultado a execução de asanas perfeitos, ou seja, com firmeza e leveza.

        Yoga Sutra 2.46     SHTIRA SUKAN ASANAM

                            A postura do yoga é firme e confortável.

Notemos que o conceito de equilíbrio entre o esforço e o conforto é o fator essencial para caracterizar a perfeição do asana, e não sua função estética. Assim concluímos que se existe alguma meta a ser alcançada numa etapa inicial para o praticante, seria ela o sadhana (atitude diária de esticar o tapete), pois assim, o praticante será capaz de transitar entre sensações e sentimentos constantes que se tornam favoráveis para seu auto-conhecimento ,e assim achar o equilibrio entre firmeza e conforto. Expandindo esse conceito para fora do tapete, ou seja, na vida pratica, com certeza os yama (auto-controle) e nyama (observâncias) irão se manifestar de forma natural e espontânea criando raízes e fazendo uma base sólida para sua vida espiritual. Seja bem vindo aos primeiros passos do yoga. Crie suas raízes! Om Shant…

 

                                                                                              Junior (jay Gauranga)

INTRODUÇÃO AO YOGA SUTRA DE PATANJALI

Patanjali foi um grande sábio erudito que deixou muitos ensinamentos sobre yoga, gramática do sânscrito e ayurveda. Acredita-se que ele era uma encarnação Divina que viveu no inicio do primeiro milênio na Índia. Sutra significa “fio”  e o termo também é utilizado para descrever um gênero literário cujo intuito é compactar ao máximo de informação e profundidade em poucas palavras.

Como é um texto objetivo e profundo, o termo yoga-sutra é muito cabível! Existe uma teoria que Patanjali coordenou o pensamento “yoguico” e explicou para seus alunos,  na medida que o assunto se desenvolvia, os alunos faziam as anotações resumidas utilizando apenas algumas palavras que futuramente reunidas se tornaram os Sutras de Patanjali que temos hoje.

O livro é dividido em quatro capítulos:

1º Samadhi-Pada (A iluminação)

Este capitulo define o que vem a ser yoga, sua meta e suas principais características; no desenvolver dos aforismos também é colocado as dificuldades encontradas no caminho e as diferentes formas de iluminação.

Sutra escolhido:    verso 2 

           Yogas  ccita-vrtti-nirodhah verso 2

Yoga significa controlar as flutuações da mente.

 2º Sadhana-Pada (A prática)

O autor coloca as qualidades necessárias para haver a transformação mental e elevar a consciência. Patanjali organiza o yoga abordando o processo espiritual num desenvolvimento de 8 etapas que culmina na meta ultima do espiritualista, a iluminação ou transe (samadhi).

Sutra escolhido:    Verso 29 

       yama-nyama-asana-pranayama-pratyahara-dharana-dhyana-samadhayo’astav angani

Os oito componentes do yoga são: autocontrole, observâncias, posturas físicas controle da respiração, retração dos sentidos, concentração, meditação e transe.

 

3º Vibhuti-Pada  (Os poderes)

Neste capitulo Patanjali descreve a capacidade da mente de controlar as flutuações mentais e ainda ir além; adquirir poderes sobrenaturais. Poderes esses, que se iniciam a partir das três últimas etapas do processo de ashtanga (oito etapas). Dharana é a concentração, dhyana a meditação e Samadhi a iluminação. Um ponto importante nesse capitulo é o conselho que o autor da aos praticantes para não se abster nos poderes psíquicos e focar o que é essencial, a união com o Supremo.

Sutra escolhido:   Verso 4  

    trayam ekatra samyamah

Estes três  (concentração, meditação e transe) focados em um único ponto constituem a perfeita disciplina.

 4º Kaivalya-Pada (A perfeita união)

Aqui Patanjali apresenta as possibilidades para o praticante que tenha alcançado com êxito o resultado do processo, esclarecendo que a mente é um subproduto e não o essencial, e uma vez que tenha essa realização, a possibilidades de sofrimento é mínima devido ao controle mental e realização de que existe algo superior, Ishvara (Controlador Supremo).

Sutra escolhido:  verso 34

Purusa-artha-sunyanam gunanam pratiprasavah kaivalyam swarupa-pratistha va citi-saktir itir it

Liberação é reverter o fluxo das coisas matérias, as quais não têm sentido para o espírito; é também o poder da consciência no estado de identificação verdadeira.

O yoga sutra foi tão importante para a evolução e entendimento da espiritualidade, que mesmo sendo um sastra (escritura) de volume inferior a muitos outros, ainda sim teve a força de gerar um darsana exclusivo com o nome de Yoga. Ou seja, entre as seis principais linhas ortodoxas na India, o Yoga de Patanjali está entre as mais importantes junto com o Vedanta e Sankhya.   Om Shant…

                                                                                             Junior (Jay Gauranga)