Diário de quem senta na janela.

Minha jornada no yoga não começou na pratica de ashtanga yoga, pois já era professor de hatha yoga quando conheci o método ensinado por Pattabhi Jois.

Venho realizado a cada ano que passa,  e a cada tapete esticado o quanto essa pratica uma vez que feita de maneira correta conduz o aluno a um alto nível de concentração, introspecção e principalmente mudança de hábitos e padrões comportamentais. Mas o que venho compartilhar nesse texto é um pouco da paisagem que sou presenteado quando sento na janela  do shala a cada sábado durante as aulas guiadas.

É tão claro e visível observar a condição psicológica da turma no início da aula: euforia, falta de atenção, uma respiração forçada e curta, e por aí vai. A mente ainda se adaptando a falta de espaço no corpo e a falta de calor devido o início da classe.

A aula se desenvolve, o calor vai tomando proporção e gradualmente a onda de saltos vão ganhando igualdade. O salto da turma chega a ressoar no coração, é  bonito para os olhos e principalmente inspirador para os espectadores! No auge da série, em Navasana (postura do barco) por exemplo, as pernas tremem em conjunto, o suor se manifesta e os olhares fixos na ponta dos pés dão uma imagem de soldados em treinamento. Sempre tem alguém olhando ao vizinho disfarçadamente comparando se as pernas estão esticadas, rs… Para um expectador iniciante a imagem assusta, mas como sempre reforço para meus alunos.

“Não praticamos ashtanga! Construímos ashtanga”

O conceito de krama (estágios/etapas) implica em aceitar e respeitar o seu corpo aplicando os asanas de acordo com o que lhe cabe hoje. Isso significa construir uma pratica com fundação, com alicerce.

No auge da aula o som da respiração uniforme de 35 alunos respirando de maneira organizada faz com que eu me lembre do som das ondas do mar a noite, quando a escuridão não permite a visão das ondas, mas seus ouvidos desfrutam do som uniforme, longo e afinado do mar.

Sim, não é uma aula fácil, é um momento de dedicação e desconforto, e muito menos de  de sorrisos. Mas sempre os olhos brilham junto aos cabelos molhados.  Observo, em mim e nos alunos, que esses momentos são formas de acessar uma força interior que muitas vezes esta adormecida no amago do nosso ser. Noto que os alunos vão ficando fortes, não apenas fisicamente, mas psicologicamente também; e isso é resultado de duas frentes:

A primeira é a constante situação de desafio proposto pelas limitações do corpo de cada um, pois gerar espaço em regiões tensas, musculaturas comprimidas que muitas vezes são resultados não apenas de toxinas mas principalmente por doenças psicossomáticas, traumas e marcas. É um trabalho de muito esforço e paciência, a longo prazo!

E a segunda é o “Tapah” o calor gerado pela disciplina, vai derretendo as camadas mais grosseiras do praticante permitindo acessar camadas mais sutis, que são imbuídas de força, pois são constituídas de prana, energia e também espiritualidade.

Mas o ponto em questão é!

Quando chegamos juntos, eu com a contagem dos vinyasas (movimento unido com a respiração) e os alunos com seus corpos abertos, quentes e expandidos no final da aula, uma vez feito padmasana (postura do lótus) encostado o queixo no peito com os olhos centrados na ponta do nariz, as cinturas torneadas devido aos Bhandas (fechos musculares). A sala quente cheira suor com o aroma de dedicação, as janelas escorrem  umidade deixando o ambiente ainda mais exótico, e o silencio se torna a maior atração.

Para mim é o momento mais profundo da aula. O silêncio, a respiração calma, fluida e profunda, o olhar atento na ponta do nariz, e o suor não para de escorrer… É tão fácil de perceber  o nível de concentração e equanimidade da mente de todos. O corpo quente e com espaço, a respiração flui de maneira tão profunda, é realmente emocionante. As costelas se expandem e se contraem devido a respiração profunda unida com os bandhas. Com todo respeito a todos os outros praticantes de yoga, mas um “ashtangui” nesse momento de sua pratica pessoal sabe qual é essa sensação… nesse momento os bhandas acontece de maneira acessível e o ambiente externo parece não existir… Esta ali, apenas você e o som, sentindo o corpo se expandir e contrair levemente… Presente, focado e aberto a questões e percepções além do que podemos tocar, apenas sentindo a si mesmo.

Om swasthi praja bhyah…

Bom shavasana a todos…

Junior (jay Gauranga)

Respiração Ujjayi , coragem e medo.

Já faz um tempo que venho notado o quanto essa pratica nos coloca constantemente em condições polarizadas, são elas inúmeras. Venho através desse texto expor duas condições mais presentes. A primeira é coragem de enfrentar nossas limitações, não apenas física, mas principalmente emocionais;  e a segunda, o medo de que não iremos conseguir executar a postura ou se machucar na tentativa da própria.

Um entendimento primário que ensino aos meus alunos na  pratica de ashtanga yoga é, nosso corpo físico é a representação grosseira de nossas emoções e expectativas, nossas células pulsam de acordo com nossas energias mais primarias e sutis, nosso estado interior se expressa ao mundo externo através do nosso corpo e dos movimentos, e nossas experiencias externas solidifica nossas emoções e sentimentos em forma de bloqueios, marcas e padrões.No yoga o asana é ferramenta de acesso ao espirito tendo como energia transmutadora a respiração Ujayi. É ai que mora a beleza desse processo tão transformador, uma pratica “mecânica” capaz de tocar a alma espiritual, que esta encoberta pela poeira das experiencias materiais.

Esticar o tapete é se expor ao âmago de suas forças e principalmente fraquezas. A cada dia me vejo mais controlador de minhas forças e mais dominador de meus medos. E isso é incrível!  São poderes advindos do mérito de muito desconforto e suor em cima do meu tapete.

S.k. Pattabhi Jois falava sobre os seis venenos que possuímos em nossos corações (desejo, raiva, desilusão,ganancia, inveja e preguiça) que são como poeira acumulada no espelho nos impedindo de ver nosso verdadeiro reflexo de luz.  E Patanjali falou de nossas flutuações mentais (vrittis) que nos mantem em ignorância (avidya) sendo principal causador de nosso sofrimento.

Junte isso e mergulhe em suas questões?

Sem julgamentos, apenas com amor e aceitação.

Talvez seja um trabalho difícil e muito delicado. Nossa mente é perversa e nosso coração é um oceano de diferentes carências, que muitas vezes não possuímos força sozinhos de transmutar em luz e sabedoria. Mas com determinação e tempo de maturidade tudo se renova.

Observo na minha pratica pessoal que esticar o tapete e respirar é uma forma respeitosa e assertiva de adentrar nesse universo. Pedimos às benção dos mestres para nos ajudar através do mantra de inicio,  com paciência e determinação, após alguns anos, as respostas gradualmente se revelam e a felicidade demonstra menos timidez a nossa frente.

Talvez nossa alimentação mude, nosso meio social, nossas fotografias nas redes sociais,  começamos a andar de bicicleta e ouvir mantras… mas o yoga ainda não está ai! Não é um hobby! É um  processo profundo de libertação:

São lagrimas e sorrisos…

É desconforto e comodidade…

É desequilíbrio e equanimidade…

É “sthira” e “sukha”…

É o desconforto de esticar o tapete as quatro da manhã na sala fria e vazia, no silencio da madrugada, no calor de uma unica vela acesa no canto da sala, oferecida com devoção a imagem do mestre, no qual sua unica companhia é o som profundo da sua respiração. Mas a felicidade unica de ver o sol nascer gradualmente na janela embaçada, após o descanso de sua pratica, a espera de um dia iluminado que te revela a vida com o olhar de um yogui buscador de seu próprio caminho.

Parece confuso, mas essa é a realidade para um simples yogui. Tem que haver medo no inicio para ansiar pela coragem. É preciso se deparar com toda nossa loucura e transtorno interior, para desejar tão intensamente pela a luz, para vibrar tão intensamente o anseio por Deus.

E gradualmente não há mas coragem, pois somos a mesma. E não há mais medo por que  iluminamos a sombra…

Estamos juntos nessa caminhada. Hari Om

Junior (Jay Gauranga)

O LUGAR

Yoga, religare, religião, autoconhecimento, enfim….

 Os nomes vão mudando, as concepções vão se formando e assim estamos todos “juntos” nessa caminhada a procura de equilíbrio, felicidade e um fim uno com o sagrado. No Bhavagad-Gita por exemplo Krishna afirma que “…todos seguem meu caminho…”

Mas o ponto em questão não é promover o ecumenismo e muito menos julgar processos, mas sim compartilhar um pouquinho do que venho percebendo na pratica de ashtanga yoga durante esses anos. Nesse texto quero falar “Do Lugar”.

O Lugar onde não se esconde.

O lugar onde não se mente.

O lugar onde não se aparenta.

O lugar onde não há equilíbrio.

O lugar onde não há luz.

O lugar onde não é confortável.

Sim, o lugar onde gera sorrisos e lagrimas ao mesmo tempo.

Nesse lugar, a repetição da série de ashtanga, diariamente, nos traz humildade para estarmos nus, apenas com nossa vontade de superar, untados com nossa limitação e a esperança de se curar. Cada praticante conhece seu lugar, conhece muito bem o asana, que como uma lanterna, clareia áreas na qual seu sistema nervoso te leva pro amago de suas marcas, fraquezas e padrões comportamentais. Ali mora o yoga, por que após esse lugar, se purificado, não é mais apenas processo, é simplesmente presença e contentamento.

Diferentes religiões e correntes teorizam esse lugar: pecado, karma, doença espiritual, falta de Deus, e assim podemos listar aqui diferentes expressões. Não desconsidero alguns conceitos importantes e profundos aqui citado acima, mas com o jeitinho manhoso do ego, vestimos nossas limitações com muitas indumentárias religiosas ou carismáticas; as vezes tão sutis, que algumas vezes um monge passa a vida toda sem perceber que sua fé é sincera, seu processo é fidedigno, mas seu dharma…???

“O lugar” onde venho expor aqui nesse texto é o ponto crucial para sentir a presença, o contentamento e principalmente ver a verdade. Mesmo que num primeiro momento ele seja muito desconfortável e demorado pra ser superado.

É difícil aceitar, e chega a doer saber que nossas verdades espirituais, nossas praticas religiosas ou até mesmo nossa purificação ainda é zona de conforto, ainda é felicidade sustentada por um círculo, por uma egregora, e por argumentos fundamentados em situações que pra nós é considerado acalentador. Sem nos mostrar realmente que não se resume apenas em  “orai!” mas principalmente em “vigiai.”

Esticar o tapete diariamente não me faz mais austero ou melhor que ninguém, não me deixa mais perto de deus do que outros processos de yoga, mas me mostra exatamente as questões crucias para minha transformação e manutenção de uma relação saudável comigo, com o que está ao meu redor e o que tem que ser resolvido em mim!  Meu corpo, minha alimentação, meu descanso e o que meu espirito precisa pra estar em paz. E após essa etapa, seguimos com nossa fé, eu sendo Hare krishna me refúgio no cantar dos nomes sagrados, e assim diferentes correntes propõe formas de desenvolver a fé de maneira profunda e bela.

 E você, já saiu da sua zona de conforto?

Abraço e paz, estamos juntos nessa caminhada.

                                                                                                                         Junior (Jay gauranga)

O coração como ferramenta de união.

Desde o inicio da criação, desde que a vida se da como existente, o som esta presente…

Até o  grande deus Brahma, arquiteto do universo, canta em glorificação.

Mesmo o som de raios, o som das águas, o som da interação entre os elementos…

Através do som, a conexão é dada, a interação, a união entre o micro e o macro.

O homem se revela através do som, a natureza se engrandece, não só com sua beleza e tamanha opulência, mas principalmente através do que ouvimos ao repara-la.

Perceber o poder da expressão, a revelação dada pelo canto é um dom que se pratica diariamente.

O canto de mantras não é apenas um ritual ortodoxo, mas um dialogo direto entre os mortais e os deuses. É um apelo do coração ao Criador.

Expressar a fé, não se resume apenas na crença; mais principalmente na atitude de acreditar que os ouvidos divinos são onipresente e onisciente.

Cantar com fé, é a busca inerente da alma. É  saciar a sede da procura pelo eterno.

É uma atitude de  humildade que somos pequenos, porém conscientes e bem aventurados.

Cantar com fé, é colocar o coração nas mãos e oferecer no altar da devoção…

É realizar  a esperança diariamente quando cantamos.

Cantar com o coração, é o pedido de perdão, mas principalmente de gratidão.

Não só pelos erros cometidos, mas principalmente pelas graças acolhidas em nossa vida.

Yoga da mente é o conhecimento. Que nos dá maturidade para entender nós mesmos.

Yoga do corpo é o asana. Que nos abre para dentro e nos tonifica para fora.

Yoga do coração é a devoção. Que nos leva a olhar para o alto e erguer os braços para receber as bençãos.

Que nos momentos de profunda tristeza e desamparo, nos leva a se agarrar numa unica faísca de luz, e que nela, com devoção e entrega, ilumina nossa vida de tal forma, que o amanhã nos aguarda cheio de graças.

O coração é uma grande ferramenta, uma vez que a mente esteja armada com o conhecimento e o corpo preparado para a meditação.

Yoga do coração. É o canto dos nomes sagrados, que nos trás humildade para aceitar que somos limitados perante Deus, mas grandes pela nossa importância de estar integrados a essa energia unificadora do amor.

Cantar é se banhar de fé. Fé é estar presente.

Cantar, é dar as mãos e caminhar juntos em direção a luz.

Bhakti é devoção, yoga é união.

Santificar o nome de Deus, independente de qual seja, é se conectar com o divino na sua essência.

É simples e profundo…

Junior (Jay Gauranga)

Yoga pra dentro.

Venho através desse texto tentar de alguma forma, explicar e dar um pouco de conforto para os alunos apressados, no sentido de facilitar o entendimento de que a pratica de asanas é algo construtivo,  de maneira diária e gradual, como a construção de uma casa: constrói a  fundação, se coloca  tijolo após tijolo, e assim gradualmente tudo toma forma. Geralmente os alunos chegam rígidos, devido diferentes questões, unida de uma cultura na qual vende produtos e remédios  se  propondo  a resolver os problemas de maneira fugaz. Essa situação junto com a grande exposição de praticantes flexíveis nas redes sociais, apenas estimula uma falsa imagem não só da verdadeira proposta terapêutica do processo, mais principalmente do objetivo dado pelo yoga. Importantíssimo estabelecer que o asana é o meio para colaborar com o fim! Qual é o fim? Yoga, conexão com algo que é maior, não só externamente como internamente. E como resultado dessa conexão vem inúmeros aspectos adormecidos, como presença, consciência, bem aventurança e etç.

Ou seja, tenha calma e mantenha a disciplina, o resto o tempo irá cuidar.

A disciplina nos revela que um corpo saudável se torna uma grande ferramenta junto com uma mente livre e presente. Os asanas ficam mais confortáveis e a respiração flui de maneira em que a percepção dos bandhas (contrações) ficam  mais acessíveis. É  uma grande conquista, e com certeza houve muito suor no tapete para esse tipo de experiência. O ponto em questão nesse texto é esclarecer que leva tempo, paciência e persistência.

A grande “sacada” desse método é!

“ Utilizar de uma pratica mecânica e fisiológica como uma grande ferramenta de libertação das amarras mais profundas já embutidas no nosso ser. Amarras essas que geram sofrimento e ansiedade, nos tirando constantemente da nossa própria presença.”

Costumo dizer para meus alunos que  as series propostas no método ashtanga vinyasa yoga, transforma nosso corpo em uma vassoura perfeita; firme e forte como um cabo de madeira e ao mesmo tempo flexível e sensível com cerdas  compridas e suaves para varrer o indesejado do nossa mente e coração, mesmo sujeirinhas infiltradas no âmago do coração.

Uma vez que a vassoura está desenvolvida, inicia um processo muito profundo de varredura, nesse momento se mantém a dedicação, introspecção e desejo continuo de melhora como um individuo, pois a busca espiritual nesse caminho se sustenta em yama e nyama, observações para com o ambiente externo e interno de cada praticante. Os yamas nos fazem se relacionar com o mundo estabelecendo um olhar de respeito e limite, sabendo até que ponto podemos manter a naturalidade de convivência e respeito a tudo que de alguma maneira nossas atitudes (karma) pode alcançar. E os nyamas nos tornam mais introspectivos para nos amar, nos valorizar e saber que somos pequenos perante uma energia maior (ishvara, o controlador supremo) e ao mesmo tempo grandes a ponto de transformar o mundo partindo do ponto de nossas próprias vidas.

É preciso valorizar o suor derramado, é preciso desenvolver a concepção do esforço como ferramenta de busca para o interior de suas amarras. Como se a cada vinyasa executado, purificasse seus plexos na região lombar refinando suas emoções, gerando espaço no peito para abrir seu coração e se tornar mais sensível ao olhar ao próximo, e os saltos te preparasse para impulsos em direção as suas verdades existenciais, sem medo de encontrar o que não é belo em si mesmo. Essa é a beleza dessa pratica!

Quando vejo os aplicativos e mídias com belas fotos e frases bonitas, fico admirado, acho lindo e inspirador.  Penso que devemos ser abertos para utilizar de ferramentas tecnológicas para inspirar as pessoas, mas ao mesmo tempo firmes em manter o propósito da tradição, não me sinto qualificado em me expor como representante da tradição, mas humildemente venho compartilhar das minhas poucas  realizações.

Quando lemos  textos como Brhadaranyaka Upanishad encontramos:

“Me leve da escuridão para a luz…”

Na Bhagavad Gita encontramos:

…Destruir com a luz brilhante do conhecimento, a escuridão vinda da ignorância.

No Yoga Sutra de Patanjali encontramos:

…O olhar não é o verdadeiro poder de visão.

São pontos que declaram a pureza da tradição, revelam o objetivo em comum de diferentes escolas, são conceitos que unificam os diferentes  pensamentos e estabelece a verdadeira meta do yoga.

Borá praticar?

Junior (jay gauranga)

 

 

 

 

 

Mãos que curam.

A abordagem na pratica de Ashtanga yoga dada por S.K. Pattabhi Jois é bem peculiar comparado a outras modalidades de yoga. Como sempre, eu venho tentado fazer essa ponte entre  filosofia e pratica, uma vez que utilizamos do conhecimento dos textos para realizações pessoais, pois isso é o alicerce do yoga!

O entendimento (textos) junto com a vivência diária (esticar o tapete)  se resulta na transformação do individuo e principalmente na mudança de olhar para o que está ao seu redor.

Patanjali expressa claramente que um bom asana reside no equilíbrio entre firmeza e conforto, assim o Yogi procura achar o equilíbrio nos diferentes aspectos da pratica e principalmente na vida…

Na abordagem em sala de aula, seguimos o mesmo caminho! O professor procura mostrar para o aluno que a perfeição não está necessariamente na estética da postura, uma vez que cada corpo possui sua estrutura, mas principalmente na qualidade da respiração, pois é ali que reside o fator terapêutico principal. Porém, o que acontece é que quase sempre os bloqueios e tensões no corpo do aluno gera limitações na respiração durante a execução da postura, por isso o ajuste vindo do professor é algo essencial nesse processo.

Dessa forma, chegamos no ponto central desse texto, a relação aluno/professor. Assim como sthira (firmeza)/Sukha (conforto). A relação intimidade/confiança é algo q se desenvolve naturalmente, uma vez que exista dedicação e sinceridade de ambos, do professor e do aprendiz….

Essa relação de confiança  e intimidade acontece de maneira muito orgânica, com o passar do tempo o professor conhece mais o corpo do aluno, e o aluno confia mais no professor, se permitindo para o ajuste, para o toque, para a interação entre ambos, como se as mãos do professor não só revelasse a técnica, mas principalmente o acolhimento e sentimento. Isso abre e cura o aluno, gera espaço e cria alicerce, e nesse ponto também reside o yoga. Como resultado, aflora uma relação de amor e admiração. Isso se chama Parampara, pois sucessão implica em transmitir experiência. E o próprio Patanjali afirma no primeiro capitulo do Yoga Sutra que conhecimento realizado através da experiência é o mais profundo!

Pratyakshanumanagamah pramanani

Discernimento (obtenção de conhecimento): a percepção direta, a logica e a autoridade no assunto. Y.S. 1.7

Me lembro de uma experiência alguns anos atrás com meu professor Matthew Vollmer:

“Kapotasana é uma postura da série intermediária geralmente muito forte, ainda mais para mim por ter as costas mais rígidas, sendo assim durante um ajuste, minha mente gritava e toda minha atenção estava na dor, a tensão e desespero tomava conta do meu ser… Perdi a respiração de controle e logo  iniciou os baixos gemidos. Com um sorriso estampado é uma voz baixa e acalentadora, ele disse: Junior, apenas ouça e respire… E assim ele colocou (com amor) uma pitada ainda mais intensa nas mãos, de maneira lenta e precisa, rs… Nesse momento, toda minha admiração e confiança em meu professor foram retomadas, e pude perceber que a respiração aliviava toda a agonia, minha mente se voltava ao momento presente e eu percebia claramente a sensação de espaço nas costas, e o peito se abrindo para o mundo de uma forma jamais sentida antes.”

Existe algo óbvio!

Bons professores são bons praticantes.

E bons alunos, são praticantes obedientes!

Não no sentido de aceitar cegamente o professor, mas obedientes na atitude de confiar no mestre, uma vez que o próprio vive o ensinamento da tradição. Aceitar quando ele diz que seu corpo ainda não está pronto, que você precisa parar ali! De aceitar que sua dose hoje é essa!

E também ao contrário!  Quando ele te convida para novas experiências através de novos asanas, que ele mesmo passou anos trilhando aquele caminho. Garimpando sensações de medo e alegria, dores e raiva, sorrisos e aberturas, se abrindo para o desconhecido.

É muito normal ver praticantes saciados cada vez mais por posturas e avanço na série, se privando da principal efeito transformador dessa pratica! O auto conhecimento, a experiência de aceitar o hoje e se contentar com o presente, de construir tijolo por tijolo, de colocar telha por telha, sem pressa, com apenas paciência e amor.

Muito obrigado ao legado de mestres e professores que vem bondosamente contribuindo para a vida de tantas pessoas.

Junior (Jay Gauranga)

Vinyasa, dedicação, amor e realizações…

Foi sábia a postura do Pattabhi Jois em titular essa pratica como ashtanga yoga, pois realizar esses conceitos filosóficos de Patanjali em cima  do tapete, requer dedicação e tempo de maturidade do corpo e da mente para perceber os benefícios mais profundos dos asanas, e assim conduzir uma pratica que aparentemente parece ser tão física a graus de profundidade espirituais.

Patanjali afirma no yoga sutra:

Sa tu dīrghakāla nairantarya satkāra-Adara-āsevito dr̥ḍhabhūmiḥ

O sucesso pode ser alcançado através da prática contínua ao longo de um período prolongado de tempo, realizada de uma maneira séria e sensata.  YS 1.14

Não é desanimador, mas instigante, afirmar que quanto mais tempo de dedicação, as experiências vão ganhando profundidade, o anseio por asanas perfeitos vão se amenizando, dando lugar para o que realmente é essencial:

“O vinyasa no seu sentido mais profundo; ao som da  respiração conduzida com movimentos leves e sutis.

 E ali, na sala vazia e escura, muitas vezes fria, aquecida apenas por uma vela de oferenda aos mestres, no amanhecer de um dia ensolarado.  O praticante tem a oportunidade de experimentar as oito etapas do yoga num único momento, mesmo que o samadhi não seja tão profundo como a “perfeita união” Kaivalya.  Para o mundo que vivemos hoje, podemos sim considerar esses momentos de conexão com sigo mesmo como um leve experimento superficial de iluminção, pois estar com sigo mesmo, é a atitude da condução da atenção para dentro (pratyahara), a concentração intensa no nosso estado interior (dharana) que resulta numa meditação em movimento (dhyana) e então, seja bem vindo a estar consigo mesmo.”

Para cada esforço, a certeza de estar na direção correta…

Para cada tapete esticado, mais uma oportunidade de ser feliz dentro do seu próprio universo.

Para cada doação  o individuo exercita a compaixão…

 Para cada sutra estudado, se revela o conhecimento, o olhar observador…

 Para cada conta de japa cantada com fé, o divino se desperta em nosso coração…

E para cada atitude na vida, uma tentativa de manifestar o amor como servidão ao próximo…

E assim, vamos caminhando, sem julgamento, e convicto de que o yoga transforma de dentro para fora.

Que presente de Deus o yoga entre os homens! E que gratidão aos mestres, pela dedicação em nos presentear com a tradição do olhar para dentro.

Tadā sarva-Avarana malāpetasya jñānasya-ānantyāt jñeyamalpam

Para aquele que se libertou de todas as impurezas e obstáculos, aquilo que pode ser conhecido se torna insignificante diante do conhecimento infinito. Y.S 4.31

Borá praticar?

                                                                                                    Junior (jay gauranga)